segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

GOSTO SE DISCUTE

O ditado que se repete muito no âmbito musical, como em tantos outros, é “gosto não se discute”. Por vezes ainda é completado com “mas se lamenta”. Entretanto, o que mais se faz é discutir (e lamentar também) o gosto musical dos outros e isto não é nem um pouco ruim.

Quem se contrapõe, explica que não se deve discutir o gosto dos outros, com o velho blablablá de sempre: cada ser é único e tem gostos singulares. Até aqui se pode dizer que realmente cada um tem gosto diferente mesmo, contudo, as pessoas não podem saber quais são seus gostos isoladas do mundo; há sempre um fator externo em sobreposição ao interno que as moldarão. Não se nasce; não se veste de forma padronizada com saias e calças; não se assiste a um filme; não se fala; não se gosta de determinados tipos de música; não se faz praticamente nada apenas por querer. Quando se nasce, há um mundo completamente sistematizado que dirá todas as regras e apresentará todos os tipos de opções a serem escolhidas; o ser humano somente “escolherá”. E essa “escolha”, porém, não será apenas porque ele gostou – assim, sem mais explicações -; acima de tudo, será por conta da vivência entre os outros humanos que a diferença será feita.

A palavra escolha incidiu entre aspas anteriormente porque, segundo o contista Jorge Luís Borges, “a porta é quem escolhe”. As portas existem e o ser apenas será guiado a ela por espécies de simpatizantes delas. Se ele foi condicionado a viver numa sociedade onde a música boa é aquela que tem uma letra de acordo com a ética e a moral vigente, provavelmente não se interessará pelas que fogem a isto. O chocalho dos índios, por exemplo, já existia para ser usado em rituais, mas, à chegada dos europeus, fundiu-se a alguns tipos de música; e estes instrumentos não são, então, mais os de antes, não comportam mais as importâncias dadas anteriormente. São novas portas que influenciaram os outros também, mas que, para tanto, precisaram das primeiras. Aos que se rebelam contra o sistema, o mesmo acontece: eles tiveram algum contato com algo que os influenciou e reinventaram as coisas que aprenderam, criando novas portas.

A imposição para que se entre numa porta, ao invés do sutil encaminhamento a ela, pode funcionar a contragosto do submisso, porém também provoca um choque entre novos conceitos e os conceitos dantes adotados pelo indivíduo, podendo este até criar uma nova porta. Exemplo disto é a severa imposição feita principalmente a partir do AI-5 na época da ditadura militar, a qual proibia, dentre outras coisas, as manifestações artísticas avessas ao governo. Isto ocasionou um crescente número de músicas subjetivas, indiretas e com muitas figuras linguagens.

As discussões sobre viver como os outros ou viver diferentemente; ou, ainda, ouvir o que todo mundo ouve ou ouvir coisas diferentes é um modo de sutil encaminhamento a uma porta. Segundo um dos considerados pais da dialética, Sócrates, existem a tese, a antítese e síntese: a primeira é um conceito, a segunda é a contraposição a este conceito e a terceira é o resultado desse diálogo. A dialética é de extrema importância à revisão dos conceitos e preconceitos para que se chegue a uma conclusão.

Quando for falar de gosto musical, portanto, dialogue civilizadamente e mostre seus pontos de vistas. Se não der certo, lamente, mas não imponha. Já imaginou se dessa imposição sai um mistura com letras de Funk carioca em música erudita? Aí se lamentará mais ainda.

5 comentários:

  1. muito bom o texto. bem persuasivo.

    valeu

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  2. De fato, Jael, os gostos se discutem principalmente quando a palavra "gosto" se refere ao tipo de música que se torna moda aos ouvidos da massa, aliás, a massa se molda à música que lhe é oferecida e não reclama se as letras apelativas, se não oferecem nada além de temas banais tratados de forma vulgar. E não estou falando do ritmo da música, do gênero, estou falando da irresponsabilidade com a apuração musical, que não existe, poderia surgir nas paradas de sucesso um funk que tivesse mais preocupação com a composição da música em todos os aspectos; mas o que se vê que faz sucesso são "hits" que banalizam o sexo, a violência, o uso de drogas e caem no "gosto" da massa, infelizmente. E se alguém for criticar a pobreza de músicas assim, a resposta é "gosto não se discute". Pois é, né. Pra mim, é aí que se deve discutir.

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  3. "... aí que se deve discutir."

    Aí, aqui e acolá. Sempre. Se não há discussão, não há modificação e principalmente a ditadura musical (ou "a ditadura dos 'hits parades'") se instala e lasca todo mundo (inclusive os de mente sã) com cada tipinho de música... Ai, ai.

    Valeu, Johnny, pelo comentário.

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  4. Realmente, gosto se discute.
    E pegando carona no comentário do Johnny, vale ressaltar que o verdadeiro funk, a essência do funk, não é essa que se ouve por aqui.
    Como li num blog, a essência do funk é a forma de expressão das pessoas que moram nos subúrbios dos EUA. E no Brasil o que vemos hoje, infelizmente é um "manual sobre sexo" musicalizado. Claro que há pouquíssimas excessões. Pouquíssimas mesmo.
    E mesmo assim não escuto pois não entra nos meus ouvidos o "batidão" desas músicas.

    "Já imaginou se dessa imposição sai um mistura com letras de Funk carioca em música erudita? Aí se lamentará mais ainda."

    HAHAHAH' .Não tentarei me impor mais nas minhas discussões para que eu não tenha que ouvir essa frase se tornar realidade.

    Seu Blog está ótimo meu camarada. Nota 10!
    Invista nele para o bem da música.
    Vai no meu perfil depois e dá uma passada lá no meu Blog e deixa sua opinião.

    Grande Abraço!

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  5. Jael,

    É muito importante provocar na sociedade uma focalização de todos para refletirem o que ultimamente estão produzindo como música neste país... particularmente nada em se tratando de música me chama a atenção neste país, mas pelo próprio bem do que julgam ser moral, a música destas bandas citadas representa o fim do que acreditamos ser justo e moral.

    Att: Cícero Márcio

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Agradeço, desde logo, o seu comentário ao texto ou o começo de um diálogo produtivo.

Jael Soares.