segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O PROBLEMA DA NÃO-RESSIGNIFICAÇÃO

A música deve se renovar de acordo com as mudanças socio-temporais e é por conta disto que podemos analisar as sociedades e os tempos através das músicas que os homens produziram/ produzem. Contudo, há que teime - por saudosismo ou “para não deixar a cultura morrer” - em fazer músicas como eram feitas dantes (com mesmos temas, principalmente) e isto acarreta numa visão falsa da sociedade aos olhos de quem está fora desta.

Para o começo, os saudosistas devem ser respeitados, mas não levados tão a sério. É evidente que alguns gêneros e estilos musicais do passado eram – de longe - mais bem produzidos, mais bem escritos, mais éticos, mais preocupados com os ouvidos dos consumidores, mas os que estão “errados” não são os atuais desses, e, sim, a sociedade, logo que é esta quem dinamiza a cultura - sim, a cultura não é estática, não se deixa prender, por mais que alguns civis e o governo tentem fazer o contrário. Trazer de volta o passado, utilizando aspectos tradicionais menos temporais, como a estética da poesia, os instrumentos, o modo de cantar, nisto há de se concordar com os saudosistas, mas os assuntos abordados nas músicas necessitam ser diversos dos do passado.

A cultura não morre, modifica-se de acordo com intervenções interiores e exteriores a ela. Tentar prendê-la é um absurdo, já que não se pode controlar as mentes e as manifestações de uma sociedade nem mesmo em governos ditatoriais. Um exemplo de como a cultura muda, pode ser o próprio Forró. Ele, originalmente, veio de músicas portuguesas, como o Fado, e se adequou aos ânimos nordestinos e transformou-se em outro gênero musical. Hoje, ele tem várias vertentes e algumas transgressões – estas que já se tornaram (aparentemente) como uma espécie de outro gênero seguidor de modas (como o chamado Forró Estilizado).

Pegue-se uma vertente do Forró, o chamado Forró Pé-de-serra, para atentar ao caso da não-ressignificação. Saudosistas insistem em continuar a retratar, em suas músicas, um Nordeste árido, onde há muita gente passando fome, onde há a seca, onde a tecnologia não chegou, de onde é preciso emigrar... Aos olhos de pessoas que moram em outras regiões do país, o Nordeste só tem miséria. Contudo, há o contrário: a região Nordeste, bem como o resto do país, a grosso modo, já saiu da linha da pobreza há um bom tempo e é uma das regiões que mais cresce no Brasil.

É claro que aquilo que é chamado de Forró hoje, em parte, não o é, fazendo com que se alteie o Forró e suas vertentes antepassados, mas enquanto estes continuarem sem ressignificação, sem contextualização de acordo com a sociedade atual, continuarão mal interpretados e mal recebidos, logo que não representam mais o cotidiano do nordestino atual.

Há, porém, estilos e gêneros que não necessitaram de ressignificação – ou pelo menos não de tanta -, como o caso do Rock Popular dos anos 80, que – em relação ao dos anos 50 - é tão aclamado ainda hoje, pois, apesar de não ressignificado, trata de assuntos ainda no contexto social da atualidade. Já o Funk, provavelmente, tem mais sucesso no Rio de Janeiro que a Bossa Nova por conter mais aspectos musicais agitados e temas que giram em torno da sexualidade, o qual está mais valorizado hoje do que a delicadeza e a quietude desta.

Ressignificar, então, não é deturpar gêneros ou estilos – a menos que se queira fazer novos destes – nem tampouco abandonar no passado ou em museus, as belas músicas de nossa cultura. Ressignificar é adequar-se à atualidade em se tratando dos assuntos a serem abordados nas músicas; é reverenciar os mestres e suas obras e seguir, acima de tudo, a maestria contextual deles.

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Jael Soares.