sábado, 22 de novembro de 2008

A ARTE DO EGO PARA EGOS

Em todas as músicas há subjetividade – tanto por parte de quem as faz, quanto de quem as ouve -, mesmo ela sendo mais direta e objetiva possível. Essa subjetividade diz respeito ao valor que cada pessoa atribui à letra; a cada interpretação que ela pode ter. Tudo depende, principalmente, do tempo, do espaço, da bagagem histórico-cultural, da subjetividade, da intenção, da melodia, dos aspectos gramaticais da letra, do ponto de vista do produtor e do consumidor dela.

Na letra da música “Metal contra as nuvens”, da banda Legião Urbana, retrata-se um ambiente claro do feudalismo e da revolta contra este estilo de organização:

Não sou escravo de ninguém - ninguém senhor do meu domínio. Sei o que devo defender e, por valor, eu sei e temo o que agora se desfaz. Viajamos sete léguas por entre abismos e florestas. Por Deus, nunca me vi tão só! A própria fé é o que destrói. Estes são dias desleais...

Analisando-na à época em que ela foi publicada (começo da década de 90), assimilando o feudalismo, mas indo mais além dele, averigua-se que ela, de maneira figurada, trata do caso do então presidente Collor de Melo e seu impeachment. O escravo da música é o povo brasileiro que, como no feudalismo medieval da Europa, “entregou” seu ouro ao senhor feudal, o “senhor do domínio”. Collor de Melo foi o primeiro presidente eleito com o voto direto e sua posse conotava um pulo do “Idade Média” ao “Século das Luzes”, contudo, ele confiscou os bens dos brasileiros - “a fé que destruiu”. Hoje esta letra, se não analisada com os olhos da época em que se lançou, é mais uma música bem bolada de Renato Russo falando sobre a Idade Média. Se analisada fora do espaço brasileiro – na Europa mesmo, por exemplo -, sem ser contextualizada, também será vista sob este prisma. E a intenção era esta, provavelmente: a linguagem figurada retoma à “Idade Média” brasileira; retoma a ditadura, quando as músicas eram repletas de linguagem figurada para passar pela censura.

Em outras músicas, recorre-se ao currículo de composições ou as características pessoais do compositor para compreendê-las. Tome-se a música “Fotografia”, de Tom Jobim. A letra fala de um encontro entre duas pessoas em um terraço de um bar, porém, não deixa claro se são amigos ou amigas, namorados, amantes ou o que quer que seja – mesmo falando em beijos. Analisando os aspectos da obra e do criador da Bossa Nova, pode-se concluir que a letra fala de um encontro amoroso que termina com “aquele beijo”. Contudo, como já foi dito, nada está claro e pode-se entendê-la de qualquer modo.

Outras músicas também necessitam dessa pesquisa de composições produzidas e das características do compositor, contudo, não ajudam tanto. Fique-se ainda com Tom Jobim e, agora, com Vinícius de Moraes e a música “Garota de Ipanema”. Nela há um trecho que diz: “seu balançado é mais que um poema”, mas, qual seria o tipo do poema? Seria concretista? Romântico? Moderno? Levando em consideração que Jobim compunha muitos sonetos ao lado de Vinícius de Moraes, pode-se dizer que o rebolado da garota era rijo, mas se “soltava” ao caminhar (como um soneto, que começa com dois quartetos e termina com dois tercetos)? Ou seria por que era belo como a disponibilização de rimas do poema? Ou seria, ainda, pela beleza que é o poema em si? Fica difícil de dizer. Só perguntando aos próprios Jobim ou Vinícius que, infelizmente, faleceram.

Tem-se também a análise da letra a partir da junção dela com a melodia. Geralmente, letras tristes pedem melodias tristes; letras alegres, melodias alegres; letras provocantes, melodias provocantes... Porém, se a música for composta por uma letra triste e uma melodia alegre ou uma melodia triste e uma letra alegre? Há que se desconfiar de algo, não é mesmo? Consegue-se pensar, por exemplo, em relação a ambas, que pode se tratar de uma mensagem humorística.

No aspecto gramatical da letra, podem-se também ter interpretações diferentes. É esquisito, mas podem. Dependendo da forma como as frases podem ser pontuadas, por exemplo, o sentido da letra muda. Na frase “um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas” da música “Um homem também chora” de Gonzaguinha, colocando um ponto final depois de “chora” e retirando a vírgula depois de “menina morena”, esta deixa de ser um vocativo para realizar a ação de desejar um colo.

Música é uma arte subjetiva, como se pode ver, mas há pessoas que exageram e “viajam” demais. Há quem diga, por exemplo, que a maioria das músicas de Chico Buarque é sobre a ditadura; que as músicas de Renato Russo sempre contêm apologias à homossexualidade; que as músicas da Xuxa são demoníacas... Não se pode afirmar que não são assim, todavia, não se pode extrapolar as coisas: como se viu com a música “Metal contra as nuvens”, o que pode ser óbvio nem sempre o é; há que se analisar bem para ter um veredicto “final” ou, ao menos, pessoal. O “Ilariê” da Xuxa pode ser uma palavra que evoca demônios, contudo, também pode ser mais uma palavra inventada para imitar os grunhidos dos baixinhos ou mesmo um produto musical “pegajoso”.

Essa diversidade de interpretações acaba distorcendo o que o compositor quis passar, no entanto, isso não é ruim de todo. Evidentemente, ao analisar uma letra, não pode deixar de contextualizá-la à história, à cultura, à subjetividade, etc do compositor dela, entretanto, o consumidor não pode deixar de contextualizá-la a esses mesmos aspectos que também fazem parte dele. É complicada toda essa história, todavia, é por isso que música é fascinante: ela concretiza o que o compositor quer e liberta, ao mesmo tempo, quem a ouve.

0 comentários:

Postar um comentário

Agradeço, desde logo, o seu comentário ao texto ou o começo de um diálogo produtivo.

Jael Soares.