A mpb, música popular brasileira, não determina um gênero, ela engloba toda e qualquer manifestação musical brasileira popular (ou seja, não-erudita); é uma nomenclatura para diferenciar a música do povo brasileiro das dos outros povos. Entretanto, não é bem assim que se fixou nas cabeças dos brasileiros.Quando se fala em “emepebê”, logo vem à mente Tom Jobim, Elis Regina, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Marisa Monte, Chico Buarque e Maria Rita, por exemplo. Eles, na maioria das vezes, são maduros musicalmente, são especializados em gêneros “elitistas” (diga-se de passagem), são aclamados pela mídia e pelos fãs por determinados fatores, sejam quais forem, e, talvez por isso, têm suas músicas na “lista” da música popular brasileira. Mas, será que a tal emepebê se resume a artistas destes garbos?
Essa longa estória de mpb como sendo um gênero que poucos participam e que quase ninguém sabe definir não é de hoje. Desde que a sigla foi inventada (mais ou menos na década de 60, com a criação do grupo vocal MPB-4), o uso dela é feito para defender o nacionalismo brasileiro e tudo o que viria de fora seria uma coisa não-brasileira. Mas aí é que está o problema: como ser genuinamente brasileiro? O Forró é fruto de músicas portuguesas, a Bossa-nova é fruto do Jazz com o Samba, alguns gêneros sulistas são provenientes de gêneros alemães; o violão e a sanfona vieram da Europa, o pandeiro, de instrumentos africanos, etc... Por conseguinte, não há embasamento neste amor à pátria.
O Brasil é repleto de artistas de gêneros musicais como o Samba, a Bossa-nova, o Axé, o Forró e tantos outros que suposta ou aparentemente são brasileiros e, ainda, outros de culturas abrasileiradas, porém, muitos deles são um pouco ofuscados por gêneros mais aclamados pela mídia e pelo público de tal forma que se leva a crer que só estes estilos são pertencentes a emepebê. Todavia, os gêneros provenientes do dito “povão” não seriam mais aptos a serem denominados de emepebê que os outros estilos mais sofisticados (que não estão lá muito próximos ao cotidiano da sociedade)? Será que o sentido verdadeiro remetente à sigla “mbp” está sendo usado?
As pessoas se assustam quando alguém na multidão diz que Kelly Key, Bruno Marrone, Sandy & Junior, MC Leozinho, Saia Rodada, Xuxa e aquele cara desconhecido (que toca músicas próprias, em português) fazem parte da mpb. Para alguns talvez seja horripilante achar que todos, ou alguns destes, possam dividir um título com os maiores cantores e mais belas músicas que se tem por aqui, mas isto é que é mpb (ou emepebê); é isto que é Brasil (um aglomerado de gente fazendo músicas de diversos gêneros e de todas as qualidades). Em quem diz o contrário, vê-se algo mais de arianismo do que realmente um desconhecimento sobre o assunto. Delimitam gêneros da emepebê como se fosse uma afirmação de que a música popular é bela, trabalhada, de alto nível e as músicas que não são brasileiras (que estão aqui apenas por causa da “indústria cultural”) são, no mínimo, de mau gosto. Talvez queiram dizer música de raiz (termo que é, além de ultrapassado, sem nexo) ao invés de emepebê, porém, vê-se que não, já que alguns aclamados gêneros “da mpb” não são “de raiz”; querem, na verdade, mostrar que a música da elite é a música popular e que, de imediato, a música popular é de muita qualidade.
Não há gênero genuinamente brasileiro a se seguir, não há modelo musical brasileiro para compor músicas, não há o gênero emepebê. Alguém pode, por exemplo, fazer Rap - é um gênero americano, mas, se a poesia da música for em português, este alguém fará uma música popular e, sim(!), brasileira. As pessoas precisam entender que não há, em nenhum local, um estilo único e imutável; todo gênero que entrar no Brasil, não será mais como antes, ele passará por um processo de abrasileiramento (mais denso ou menos, mas passará). Então, para fazer parte da música popular brasileira, primeira e obviamente, é preciso trabalhar com músicas em português ou, quiçá, em uma língua indígena (todavia, continuemos apenas com a primeira para não complicar) e com um gênero popular ou popularizado – no mínimo.
As pessoas precisam, portanto, ao invés de selecionar gêneros - como se estivessem numa feira de frutas, onde podem separar as frutas podres das melhores -; elas têm que parar com essa mania de “esquecer” as menos favorecidas ou de “menos qualidade”; elas precisam de menos mediocridade e hipocrisia e exigir uma melhor e bela música popular brasileira.
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Jael Soares.